Cusco, Águas Calientes e Machu Picchu – Pt 2

Parte dois

De Cusco a Águas Calientes – Altitude, tanques de oxigênio, abismos e hospitais

Dica: Nosso hostel em Cusco disponibiliza um guarda-volumes. Então, deixamos as mochilas grandes e levamos apenas o essencial. Procure por um hostel que que faça o mesmo por você. Não é uma boa escolha carregar mochilas de 60Lt nas costas por horas de caminhada, sem falar da altitude elevada.

Saímos da capital do império Inca com 1 hora de atraso, por volta das 08h00am. Entramos em uma van que nos levaria até a hidrelétrica de Santa Maria, onde se inicia a trilha para Águas Calientes. O percurso de van, contando com uma parada para o café e uma para o almoço, dura em torno de 6h, por estradas deslumbrantes a beira de desfiladeiros realmente intimidadores. Uma vez na hidrelétrica, se caminha em torno de 2h até a cidade que serve de base para quem vai a Machu Picchu.

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Você pode também optar por um trem direto de Cusco até Águas Calientes, por algo em torno de USD 100 e uma viagem em torno de 3h, operada pela Peru Rail, entretanto sem toda a emoção descrita logo aqui em baixo.

No carro, além de mim e do Tonco, a maioria era de chilenos, tinha também uma família peruana, uma brasileira e dois japoneses. O motorista mau humorado balbucia algumas recomendações em um espanhol incompreensível, balanço a cabeça positivamente, Tonco me pergunta o que o motorista disse e eu respondo “i have no fucking idea, comrade”. Seguimos.

Algumas pessoas estavam apreensívas com a altitude.  De fato é preciso se preocupar. A viagem começa nos 3300m de altitude de Cusco e desce um pouco, passando pelo belíssimo (aliás esse é um adjetivo muito usado por mim, na tentativa de descrever os cenários que vejo no Peru) vale sagrado de Ollaytambo, a 2600m. A partir daqui seguimos rumo ao céu, beirando as encostas das montanhas, onde rios simplesmente passam por cima do asfalto.

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Já passávamos das nuvens e fazia muito frio quando atingimos os 4316m de Abra Malaga. Desse ponto a diante tornamos a descer. E foi em algum ponto entre o povoado de Inca Tambo e Huyro que um dos rapazes japoneses começou a passar mal… o que começou com um desconforto, passou a assustar. Lhe dei água e folhas de coca, não ajudou. O motorista tinha uma lata de oxigênio que também não aliviou em nada. Uma garota chilena tinha uma bombinha para asma e lhe ofereceu um pouco, com a melhor das intenções. Não sei se aquilo funcionava de verdade, mas o japonês usou quase tudo. Sua situação piorou. Ele agora urrava  e pedia “oxigen, PLEASE!”.

Quando finalmente encontramos um posto de saúde, em um pequeno vilarejo nas montanhas, ele estava aberto, porém completamente vazio! Um aviso escrito à mão prezo na porta dizia que todos tinham saído para uma campanha de prevenção contra dengue. Outro país e os mesmos problemas de casa…

De volta a van, ainda mais assustados com o estado do japonês. Agora além de literalmente urrar, ele tinha os músculos contraídos, de forma que seus dedos ficaram tortos, duros como pedra. Eu tentava esticar seus dedos mas era impossível. Paramos no acostamento e uma gentil senhora saiu correndo para sua casa na beira da estrada e voltou com algumas ervas e um pouco do que me parecia álcool. Amassou as ervas e misturou com o líquido e colocou próximo ao nariz do rapaz, para que ele inalasse, tudo com muita calma, já deve estar acostumada com turistas sofrendo com o mal da altitude. Isso também não adiantou…

Mais uma vez no carro, com o motorista acelerando pelas sinuosas estradas até o próximo vilarejo, foram uns 10 minutos, mas parecia uma eternidade. Enfim avistamos um vilarejo, numa esquina dois senhores simplesmente contemplavam a velocidade com que o tempo passa alí nas montanhas. Um dia naquela esquina deve durar mais que três dias em São Paulo. Nos indicaram um posto de saúde e, dessa vez tinha gente dentro.

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Horas no hospital

Tonco e eu carregamos o garoto nos ombros para dentro da unidade de saúde, mesmo com toda a adrenalina do momento, a limpeza e organização do lugar me chamou a atenção, não vi nada assim no Brasil.

Um jovem doutor atendeu o rapaz. Oxigênio deveria bastar, mas algo estava errado, o coração do jovem batia descompassado e o estado de seus músculos não parecia normal. O médico então perguntou se tínhamos dado mais alguma coisa para o japonês, todos olhamos para Marlene, a garota chilena que lhe ofereceu o remédio para asma (Com a melhor das intenções, é claro. Além disso o garoto implorava e sofria muito, eu teria feito igual.), na mesma hora o doutor pediu que a enfermeira preparasse uma injeção e aplicou.

A comunicação era uma bagunça. O médico falava em espanhol para Marlene, que me falava em uma mistura de espanhol e inglês, ai sim eu passava o recado para os japoneses HAHA!

Um turista japonês, passando mal no meio das montanhas do Peru, dependendo das minhas habilidades linguísticas em espanhol e inglês para compreender algo. Ele estava em apuros…

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