Cusco, Águas Calientes e Machu Picchu – Pt 2

Parte dois

De Cusco a Águas Calientes – Altitude, tanques de oxigênio, abismos e hospitais

Dica: Nosso hostel em Cusco disponibiliza um guarda-volumes. Então, deixamos as mochilas grandes e levamos apenas o essencial. Procure por um hostel que que faça o mesmo por você. Não é uma boa escolha carregar mochilas de 60Lt nas costas por horas de caminhada, sem falar da altitude elevada.

Saímos da capital do império Inca com 1 hora de atraso, por volta das 08h00am. Entramos em uma van que nos levaria até a hidrelétrica de Santa Maria, onde se inicia a trilha para Águas Calientes. O percurso de van, contando com uma parada para o café e uma para o almoço, dura em torno de 6h, por estradas deslumbrantes a beira de desfiladeiros realmente intimidadores. Uma vez na hidrelétrica, se caminha em torno de 2h até a cidade que serve de base para quem vai a Machu Picchu.

IMG-20160215-WA0012

Você pode também optar por um trem direto de Cusco até Águas Calientes, por algo em torno de USD 100 e uma viagem em torno de 3h, operada pela Peru Rail, entretanto sem toda a emoção descrita logo aqui em baixo.

No carro, além de mim e do Tonco, a maioria era de chilenos, tinha também uma família peruana, uma brasileira e dois japoneses. O motorista mau humorado balbucia algumas recomendações em um espanhol incompreensível, balanço a cabeça positivamente, Tonco me pergunta o que o motorista disse e eu respondo “i have no fucking idea, comrade”. Seguimos.

Algumas pessoas estavam apreensívas com a altitude.  De fato é preciso se preocupar. A viagem começa nos 3300m de altitude de Cusco e desce um pouco, passando pelo belíssimo (aliás esse é um adjetivo muito usado por mim, na tentativa de descrever os cenários que vejo no Peru) vale sagrado de Ollaytambo, a 2600m. A partir daqui seguimos rumo ao céu, beirando as encostas das montanhas, onde rios simplesmente passam por cima do asfalto.

abra-malaga-cusco

Já passávamos das nuvens e fazia muito frio quando atingimos os 4316m de Abra Malaga. Desse ponto a diante tornamos a descer. E foi em algum ponto entre o povoado de Inca Tambo e Huyro que um dos rapazes japoneses começou a passar mal… o que começou com um desconforto, passou a assustar. Lhe dei água e folhas de coca, não ajudou. O motorista tinha uma lata de oxigênio que também não aliviou em nada. Uma garota chilena tinha uma bombinha para asma e lhe ofereceu um pouco, com a melhor das intenções. Não sei se aquilo funcionava de verdade, mas o japonês usou quase tudo. Sua situação piorou. Ele agora urrava  e pedia “oxigen, PLEASE!”.

Quando finalmente encontramos um posto de saúde, em um pequeno vilarejo nas montanhas, ele estava aberto, porém completamente vazio! Um aviso escrito à mão prezo na porta dizia que todos tinham saído para uma campanha de prevenção contra dengue. Outro país e os mesmos problemas de casa…

De volta a van, ainda mais assustados com o estado do japonês. Agora além de literalmente urrar, ele tinha os músculos contraídos, de forma que seus dedos ficaram tortos, duros como pedra. Eu tentava esticar seus dedos mas era impossível. Paramos no acostamento e uma gentil senhora saiu correndo para sua casa na beira da estrada e voltou com algumas ervas e um pouco do que me parecia álcool. Amassou as ervas e misturou com o líquido e colocou próximo ao nariz do rapaz, para que ele inalasse, tudo com muita calma, já deve estar acostumada com turistas sofrendo com o mal da altitude. Isso também não adiantou…

Mais uma vez no carro, com o motorista acelerando pelas sinuosas estradas até o próximo vilarejo, foram uns 10 minutos, mas parecia uma eternidade. Enfim avistamos um vilarejo, numa esquina dois senhores simplesmente contemplavam a velocidade com que o tempo passa alí nas montanhas. Um dia naquela esquina deve durar mais que três dias em São Paulo. Nos indicaram um posto de saúde e, dessa vez tinha gente dentro.

IMG_20160212_135731
Horas no hospital

Tonco e eu carregamos o garoto nos ombros para dentro da unidade de saúde, mesmo com toda a adrenalina do momento, a limpeza e organização do lugar me chamou a atenção, não vi nada assim no Brasil.

Um jovem doutor atendeu o rapaz. Oxigênio deveria bastar, mas algo estava errado, o coração do jovem batia descompassado e o estado de seus músculos não parecia normal. O médico então perguntou se tínhamos dado mais alguma coisa para o japonês, todos olhamos para Marlene, a garota chilena que lhe ofereceu o remédio para asma (Com a melhor das intenções, é claro. Além disso o garoto implorava e sofria muito, eu teria feito igual.), na mesma hora o doutor pediu que a enfermeira preparasse uma injeção e aplicou.

A comunicação era uma bagunça. O médico falava em espanhol para Marlene, que me falava em uma mistura de espanhol e inglês, ai sim eu passava o recado para os japoneses HAHA!

Um turista japonês, passando mal no meio das montanhas do Peru, dependendo das minhas habilidades linguísticas em espanhol e inglês para compreender algo. Ele estava em apuros…

No fim, o médico explicou que os músculos contraídos e o coração batendo fora do ritmo, foram causados pelo remédio de asma… como poderíamos saber?
Mais um tempo de repouso e o jovem japonês estava novo em folha. Partimos.

road
Imagem da internet

Seria redundância falar da beleza das paisagens que nos fazem esquecer a precariedade das estradas e o perigo que corremos beirando abismos e raspando paredões de pedra. Estamos quase em Santa Maria.

Perdemos horas preciosas no hospital, a previsão é que que tenhamos que fazer mais da metade da trilha para Águas Calientes de noite.

Finalmente chagamos na hidrelétrica, já são quase seis da tarde. O motorista cospe mais umas palavras em um espanhol incompreensível e deixamos a van. O entardecer está lindo! O sol iluminando o topo das montanhas que estão por todos os lados alivia a tensão de ter que caminhar por quase três horas em uma trilha, boa tarde disso no escuro.

IMG_20160212_172518361_HDR

IMG_20160212_174345298_HDR

Pontes, montanhas, rios, desfiladeiros, cachoeiras… a beleza desse país é deslumbrante e nos lembra disso a todo instante. Seguimos o trilho do trem, beirando o rio e inevitavelmente sempre olhando para trás e procurando os turistas japoneses, às vezes até esperando eles nos alcançarem. Simpatizei com os caras.

No caminho, fizemos amizade com Marlene (a garota chilena do remédio de asma) e Tutu, sua melhor amiga. Seguimos conversando, enfrentando a dureza do cascalho que beira a linha do trem. Já no fim da trilha, quando não havia mais luz alguma e todo o grupo debatia se seria uma boa ideia atravessar o escuro e estreito túnel, ouvi uma voz falando português, não pude ver seu rosto, mas nos falamos e permanecemos juntos até onde havia luz, já na saída do túnel, na entrada de Águas Calientes. Eu acabara de conhecer Gisele, brasileira que viajava sozinha e agora se juntara a nós, ainda meio sem saber.

Chegamos a plazoleta, onde nos despedimos das garotas. Elas tinham que procura por hospedagem, não compraram o mesmo pacote que nós. Procurávamos nosso guia que devia estar nos esperando desde muito cedo, afinal atrasamos pra valer.
Não encontramos ninguém e em pouco tempo a praça já estava vazia, todos já haviam encontrado seus guias.

Já nos sentiamos meio tristes, após a longa caminhada e agora frustrados por não saber onde ficar… por um lance de muita sorte, as garotas que conhecemos na trilha dobraram uma esquina e voltaram a praça. Nos disseram que encontraram uma habitação barata, com um quarto grande e que poderíamos dividir, por 25 soles cada. Salvaram a noite! Na hora me senti melhor. Agora tinha onde tomar um banho, uma cama para me deitar e tirar o peso das horas de trilha de meus ombros.

5b63874d-6b5d-4eea-8f58-4ffe0be540bb
Tonco, Marlene, Gisele, Tutu e eu.

Um bom banho, umas notas no meu caderninho, carregar as baterias das câmeras. Saímos todos para comer algo e tomar uns goles. Inclusive Gisele que, segundo ela mesma, nunca havia bebido. Por 30 soles se bebe 5 drinks. Piñacolada, caipirinha, cuba libre, peru libre, mojito ou pisco sour, escolha os seus. Cada um de nós bebeu 5, eu me sentia ótimo gritando e correndo pelas pontes sobre o bravo rio. Estávamos altos, felizes. Foi a primeira grande noite da viagem!

Continua…

Galeria:

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s