DO ATLÂNTICO AO PACÍFICO – A maior viagem de ônibus do mundo

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São Paulo, 1 de fevereiro de 2016.

Amigos

É com prazer que início aqui uma empreitada que há muito venho ensaiando, mas agora sei que me faltava a oportunidade certa, o gatilho.

Vocês estão prestes a embarcar comigo na maior viagem de ônibus do mundo, feita em um único veículo, segundo o Guinness Book (quando iniciei a viagem, o trecho entre Rio de Janeiro e Lima, anunciado pela mesma empresa, ainda não tinha sido inaugurado).

Espero lhes proporcionar uma boa leitura, tirar algumas dúvidas e, quem sabe, dar o empurrão que falta para encarar a viagem dos sonhos.
O importante é sair da zona de conforto. Eu demorei um  tempo para conseguir, e sei que toda palavra de incentivo ajuda. Ir para longe de casa, nos aproxima de nós mesmos. Sem falar no quão enriquecedor é.

Há mais ou menos três anos, conheci esse roteiro, operado pela Ormeño S/A, que fazia algo que, ainda hoje, me parece bastante audacioso: atravessar, por terra, os 5.600KM que separam São Paulo de Lima, a capital peruana.

Desde então, me vi obcecado pela ideia. Além do custo não muito alto, vantagem óbvia para viajantes como eu, com o orçamento sempre apertado, isso me realizaria um sonho de infância, que é conhecer a magnífica Cordilheira dos Andes! Aliás, não é apenas vê-la de longe, estou falando de atravessá-la pela rodovia Transoceânica. Isso já valeria todo o esforço.

Desde o início, minha maior dificuldade foi encontrar informações sobre a viagem. Existe pouco escrito, até mesmo nos tradicionais sites de mochileiros. Sendo assim, minha intenção aqui é fornecer além da inspiração para a sua viagem, informações realmente úteis.

Postarei tudo o que puder, para tentar tornar sua jornada mais tranquila do que a minha.

Chega de falar.

Abaixo, informações gerais.

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Ormeño S/A:

São Paulo / Lima: R$720,00 (semi-leito), R$770, (leito). Pagamento via dinheiro, débito automático ou depósito em conta corrente.
Duração: 4 dias. Saídas todas as quartas-feiras.
Onde Comprar: Terminal Rodoviário do Tietê, guichê 381 (setor internacional).
Contato: adm.saopaulo@grupo-ormeno.com.pe
Telefone: +55 (11)2089-1196 / +55 (11) 96338-9910 (WhatsApp / Alan).

A viagem

Tudo o escrito abaixo foi extraído na íntegra, do meu caderno de anotações. Sim… um caderno de anotações… levar um notebook estava fora de cogitação e escrever em um smartphone seria horrível.
Eu não queria falar sobre lembranças, queria ter um registro das minhas impressões, sem perder nada para o tempo. Minha memória sempre me trai.

É claro que escrever aqui minhas anotações, prejudica a coesão e a objetividade do texto, mas deixa mais honesto, orgânico.


#Dia 1
São Paulo, 03 de fevereiro de 2016.

Como sempre, uma saudade enorme me toma o peito, abafa a empolgação da viagem. É sempre assim quando vou pra longe…

Pelo volume das bagagens, muita gente aqui vai para não retornar…

Às 04:00pm, uma hora atrasado, nosso ônibus deixa a plataforma 57 do terminal rodoviário do Tietê. Pela janela, minha cidade vai ficando para trás. Me sinto só e ao que parece, ninguém aqui fala português.

No pequeno televisor, está começando “Los 33”, em espanhol. A viagem será longa.

#Dia 2
Ontem, após uma parada de 1 hora, na cidade paulista de Ibirarema, a primeira após longas 6h de viagem e incontáveis pedágios, voltamos para a estrada, e tive a chance de conversar com as pessoas que estão sentadas próximas a mim.

Rafael é um peruano nascido em Cusco, que trabalha em São Paulo há 7 anos. Durante esse período, jamais retornou a sua cidade natal, se comunica com sua esposa apenas pela internet.
No percurso, me presenteou com incríveis histórias de sua infância, transitando pelas perigosas estradas que ligam Cusco a Lima, acompanhando seu pai, um vendedor de panelas, hoje aposentado. Me recomendou experimentar “Cuy”, prato típico peruano que aqui conhecemos como o fofinho porquinho da índia. Combinamos de tomar uns tragos para comemorar seu retorno.

Também tive o prazer de conhecer João, um gentil senhor brasileiro que após 30 anos de serviços prestados a Mercedes Benz, decidiu colocar em seu currículo, que já conta com inúmeras viagens de bicicleta, dentro do Brasil, a mais longa viagem de ônibus do mundo.

João ficou um tanto desapontado quando lhe contei que, em pouco tempo, a própria Ormeño inauguraria o trecho Rio-Lima, que vai superar em alguns quilômetros a nossa viagem…

O segundo dia de viagem vai amanhecendo e os pastos vão até onde a vista alcança. Estamos no estado do Mato Grosso do Sul.
imagePouco após às 09h da manhã, fizemos nossa segunda parada, na cidade de Sonora, já pertinho da fronteira entre os estados do Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. Acho incrível que todos tenham comido como se fosse um almoço de domingo… nessa parada, se paga R$1 para usar o sanitário e R$5 para um rápido banho.

Deixamos a rodoviária para trás e pouco tempo depois atravessamos a ponte que liga os dois estados. O asfalto piora consideravelmente, a paisagem não muda.

Final de tarde e seguimos engolindo estradas.

A medida em que vejo placas indicando a direção para lugares como Belém, Porto Velho, fronteira entre Brasil e Bolívia e Pantanal (que aliás, já ficou para trás), percebo como estou longe de casa.

A paisagem e as estradas melhoraram, seguimos em direção ao estado de Rondônia.

Passei o dia enchendo meu companheiro peruano de perguntas sobre as cidades por onde passarei. Ele me deu boas dicas. Além disso, tive uma aula de história peruana, política e ditadura, raízes… Enriquecedor.

“Põe no blog aê!” – Disse João, após ficarmos parados 1h em uma blitz da Federal.

Acho que o cansaço me fez perder a vontade de escrever. Estamos em Rondônia, chegando em Porto Velho, capital do estado.

Aqui fizemos nossa quarta parada. O banho foi gratuito e refrescante, nunca vi um lugar tão quente! Ainda não fiz uma refeição decente.

#Dia 3
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Já é manhã. Para ser mais preciso, são 07:00am da manhã, horário local.
Estamos parados na alfândega entre o Brasil e o Peru, que só começa o expediente às 08:00am. Por tanto, não adianta vir de madrugada, terá que dormir no carro.

Preciso deixar registrado que o Acre existe sim! Escrevo essas palavras de algum ponto dele. Gosto da estrada e do fato de muitas vezes não saber onde estou…

Ontem, já no final da tarde, fizemos a travessia do Rio Madeira, na floresta amazônica, utilizando uma balsa. Sem a menor dúvida, um dos momentos mais incríveis da viagem. Em algum ponto, a rodovia simplesmente acaba. Todos descem e embarcam na balsa, que começa a travessia assim que todos os veículos estão a bordo.
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O rio tem cerca de 1km de largura e a travessia leva só alguns minutos. Demos a sorte de pegar o por do sol…

Quero conhecer a Amazônia.

Continuei conversando com Rafael e me choquei com seus relatos de como vivem ele e seus compatriotas, lá em São Paulo. Toda violência que a televisão não mostra, a gente que não vemos. Eles são invisíveis aos nossos olhos. Uma vergonha…
Pretendo falar disso em um post separado.

Finalmente no Peru

Já em terras peruanas há algumas horas. Perdemos muito tempo com os tramites de imigração, tanto do lado brasileiro, como do lado peruano.

Até esse momento, fomos parados em três blitz que buscavam drogas. Uma vez no Brasil e duas aqui do outro lado da fronteira.

Ao pisar no lado peruano, uma das primeiras coisas que fiz foi provar a tal da Inca Kola. wp-1457448657616.jpegEncorajado por meus colegas que estavam visivelmente felizes por voltar para casa, eu provei e, todos disseram “NOOOO, ESTÁS LOCO!”, quando disse que preferia Coca-Cola.
De fato o refrigerante favorito dos nossos vizinhos é muito doce e com um sabor difícil de decifrar.

Gostei de como eles defendem essa bebida amarela, tem algo de orgulho por algo genuinamente peruano, apesar de hoje pertencer a Coca-Cola.

Escrevo aqui de algum ponto no meio da Serra de Santa Maria (se me lembro bem), lugar onde vi paisagens que nunca pensei ver pessoalmente. A beleza das montanhas e dos rios anula o medo dos abismos, que são muitos. Já passamos por dois deslizamentos e, muita gente me disse que não era uma boa ideia vir em época de chuva. Sou teimoso.

A Cordilheira dos Andes

Como já havia previsto o motorista, cruzamos os andes de noite, mas sem a neve que ele havia dito. Torci muito por algum atraso, queria ver a cordilheira…

Chegamos a Cuzco por volta de 01:00am, com um frio de uns 2°C. Aqui, meus colegas desembarcam. Rafael finalmente reencontrará sua esposa, após 7 anos, e João vai seguir sua aventura de bike pelo vale sagrado de Ollantaytambo. Foi um prazer conhecê-los e dividir tantas histórias… trocamos telefones. Espero manter contato.

#Dia 4
Faz um frio de doer, dentro do ônibus e, lá fora, aparentemente tudo congelou.
Estamos em algum ponto entre Cusco e Lima. A neblina não me deixa enxergar muita coisa e não consigo ver as placas.

wp-1457449730225.jpegA medida em que descíamos mais uma montanha, a névoa, aos poucos ia se dissipando e ficou claro para mim que estávamos dentro de um episódio de “Estradas Mortais”.

Eu queria ter palavras que pudessem descrever esses vales, rios e montanhas… queria ser capaz de dividir isso, mas infelizmente a chuva não me permite filmar ou fotografar do jeito que gostaria.

wp-1457449678859.jpegPausa para o café da manhã em uma parada que fica em um lugar inacreditável. Durante essa viagem me impressionei com o contraste das paisagens entre Brasil e Peru. A melhor parte é realmente depois da fronteira.

Nas últimas horas, estive conversando com Nicolas, um senhor peruano que mora em Guarulhos, SP, e que, ao contrário do que meu preconceito sugeriu, nas primeiras linhas desse caderno, não está voltando para o Peru de vez, deixando o Brasil. Esse senhor só quer viajar, como eu.
Me contou sobre sua esposa que não se adaptou muito bem ao caos paulista, mas disse que não gostaria de voltar de vez para casa, pois sua filha e seus sobrinhos, criados por ele, gozam de oportunidades muito melhores em terras tupiniquins. Os três trabalham como tatuadores. Nicolas levanta a manga da camisa e me mostra orgulhoso a tatuagem de uma águia real e diz “A primeira tatuagem feita pela minha filha. Muy buena!”, e sim… a tatuagem estava realmente boa.

Aprendi demais com essa gente alegre, de coração bom. Em nenhum momento me negaram ajuda, fosse para pedir um sanduíche, traduzir o cardápio ou explicar ao pessoal dos restaurantes a razão pela qual meu Pollo Y Papas era apenas Papas. Só tenho a agradecer pela ajuda e por mudarem a maneira como enxergo muitas coisas.

Voltarei para casa com uma melhor noção de como são as coisas em SP. Confesso que sinto vergonha do modo como agimos, quase sempre ignorando peruanos, bolivianos, paraguaios, chilenos, haitianos, chineses, coreanos e muitas outras etnias, como seres sociais.

Foram necessárias poucas horas para que quebrássemos o gelo, na parte da frente do ônibus, mas até agora, tem brasileiro que ainda não dirigiu uma palavra para outras pessoas.

Fiz o que podia para me enturmar. Falamos de futebol, música… Tomei Inca Kola com los chicos e cantei Calypso (sim, Calypso) com las chicas. No meu peito, só gratidão, antes mesmo da minha chegada.

Mais do que as florestas, vales e desertos que vi, me impressionei com a consciência política e  o conhecimento da própria história que eles têm. É admirável o amor que sentem por seu país.

Eu olhava boquiaberto o deserto em Nazca,quando Nicolas falou: Lindo não? É o Peru, Maravilha do Mundo!

Galeria:

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